EM ESPINHO
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A Colónia Piscatória

Os livros de registos da paróquia de Anta incluem, a partir de 1771, assentos de nascimentos e óbitos ocorridos no lugar de Espinho, ainda que com carácter irregular, pois manter-se-ia o hábito de ocupação temporária da costa durante o verão, com regresso a Ovar, quando as condições naturais assim o exigiam. Essas migrações cíclicas terminariam, a partir do momento em que se descobriram novos métodos de trabalho. Em 1776, chegou ao Furadouro um francês, chamado Jean  Pierre Mijaule e natural de Languedoc, que aí instalou um armazém de conservação em salmoura, permitindo manter o peixe durante vários meses e, consequentemente, vendê-lo no inverno a preços muito superiores, quando antes os excedentes eram cedidos aos agricultores, para adubo, a preços mais baixos.
Quando se apoderaram dessa técnica, alguns núcleos decidiram fixar-se definitivamente nas zonas onde permaneciam na época de pesca, pois passaram a ter fonte de negócio todo o ano, podendo diversificar os métodos e recolher maiores quantidades e outra variedade de géneros: junto à costa através da "arte pequena" (faneca, polvo, linguado, caranguejo); a maiores distâncias através da "arte grande" ou "arte xávega" ( principalmente sardinha).
 
 
Quando o peixe recolhia às dornas de salmoura e as tarefas comerciais eram asseguradas pelos mais velhos e pelas mulheres, intensificavam intercâmbios com outras colónias a norte (Afurada, Matosinhos, Póvoa de Varzim), pelo que as ligações com Ovar se foram diluindo.A povoação do lugar de Espinho, distante dois quilómetros da paróquia de Anta, era constituída, no início do séc. XIX, por cerca de 120 famílias, que habitavam em casas de madeira, amontoadas em torno de um largo e ligadas por vielas estreitas, enquanto junto ao mar se situavam barracos, para guarda dos aparelhos de pesca e instalação dos armazéns de salga. Em 1809, concluiu-se a construção de uma capela, votada ao culto de Nossa Senhora da Guia, usual na Galiza, cabendo a iniciativa a Eugénio Nunes, de origem galega e residente na costa, onde herdara uma série de bens (casas, armazéns, um quintal e o único poço de água do lugar). A sua situação económica conferia-lhe um significativo grau de influência, comprovado pelo facto de, apesar das relações difíceis que o povoado mantinha com o pároco de Anta, ter conseguido o apoio da Casa do Infantado (entidade gestora do antigo Condado da Feira) e o consequente diferimento do Bispo do Porto.
 
 
O templo, que passou a ser conhecido como "Capela dos Galegos", foi benzido, na sua abertura, pelo pároco de Esmoriz, albergando também as imagens de S. Francisco e de Santa Rita, vindas de um convento de Gaia. 
O facto de existirem famílias oriundas da Galiza, com propriedades herdadas de antepassados, reforça a ideia de ter sido a costa, também, colonizada por movimentos provenientes dessa região, que mantinha intercâmbio com Gaia desde há muitos séculos, nomeadamente em matéria de pesca. Deste modo, é mais fácil estabelecer alguma relação lógica com a lenda dos dois galegos, cuja discussão, em torno da natureza de um pedaço de madeira trazido pelo mar ("Es piño!"), seria o ponto de partida etimológico para "Espinho", sem no entanto se poder conferir-lhe qualquer consistência. A este propósito, o Padre André de Lima, espinhense que nos inícios do século passado publicou artigos sobre história local, era peremptório:« É para evitar que se escrevam destas e semelhantes tolices que eu reconheço ser preciso publicar o que sei sobre Espinho(...)».

Carlos Morais Gaio 


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